Mulheres além do trabalho
Um documentário sobre a escala 6×1 e a economia do cuidado, contado por dez mães da Ocupação Mauá.
Obrigado por vir.
Na luta é que a gente se encontra.
Escola da Cidade · 26 de setembro de 2026
Conheça quem fez6×1 no crachá. 7×0 em casa.
A folga do contrato vira o dia da faxina, da roupa, da feira. Para elas, a semana tem sete dias de trabalho.
Elas acordam antes das seis, deixam os filhos na escola ou na creche e atravessam a cidade para trabalhar. Quando voltam, o turno continua: janta, roupa, louça, lição de casa.
O filme ouve dez mães da Ocupação Mauá e duas pesquisadoras que estudam gênero e trabalho. A pergunta que atravessa tudo: quem cuida de quem cuida?
de pessoas trabalham na escala 6×1 no Brasil, com pelo menos 44 horas por semana.
por semana: é quanto as mulheres trabalham a mais que os homens, somando o trabalho não pago.
de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo é feito por mulheres.
Dados citados no documentário, incluindo o Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026.
Cuidar é trabalho. Alguém acorda antes de todo mundo, faz a comida, lava a roupa, leva na escola, acompanha no médico, cuida de quem está doente e de quem envelhece. Sem esse trabalho ninguém sai de casa para a fábrica, para a loja ou para o escritório.
Esse trabalho quase nunca aparece no contracheque nem na conta do PIB. Ele é a base invisível de toda a economia e recai principalmente sobre as mulheres pobres, negras e periféricas.
por semana é o tempo que as mulheres dedicam a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens são 11,7 horas, segundo a PNAD Contínua 2022.
do trabalho de cuidado não pago dentro das famílias brasileiras é feito por mulheres, segundo o FGV IBRE.
é quanto esse trabalho teria somado à economia brasileira se fosse contabilizado, valor perto do PIB do estado do Rio de Janeiro.
de horas de cuidado não remunerado são realizadas por dia no mundo, na conta da Organização Internacional do Trabalho.
Nenhuma dessas horas entra no contracheque. Elas acontecem antes do turno, no intervalo e depois que a casa dorme.
Quem trabalha fora e cuida em casa vive sem tempo próprio. Entre as mulheres ocupadas, são 17 horas e 48 minutos semanais de cuidado, contra 11 horas dos homens na mesma situação. Esse peso encurta a jornada remunerada delas, empurra muitas para o trabalho informal ou de meio período e explica por que tantas jovens ficam fora do estudo e do emprego.
O resultado aparece no corpo. Nas entrevistas deste filme, isso tem nome: dor nas costas, emagrecimento, consulta perdida, apresentação da filha que ela não viu, a sensação de nunca dar conta.
Creche em tempo integral e perto de casa, escola que acolhe antes e depois do turno, lavanderia e restaurante comunitários, transporte que não come duas horas do dia, atenção domiciliar para idosos e pessoas com deficiência: cada um desses serviços tira horas das costas de uma mulher.
Em dezembro de 2024 foi sancionada a Lei 15.069, que criou a Política Nacional de Cuidados e reconheceu o cuidado como direito e como dever do Estado. Em 2025 veio o Plano Nacional de Cuidados, o Brasil que Cuida. O desafio agora é sair do papel, com orçamento e serviço na ponta.
Reduzir a jornada é política de cuidado. Enquanto a semana tiver seis dias, a conta continua fechando em cima delas.
Fontes: IBGE (PNAD Contínua 2022), FGV IBRE, OIT, ONU Mulheres e Lei 15.069/2024.
Onde elas vivem
Rua Mauá, centro de São Paulo. Um antigo hotel abandonado que virou casa de 237 famílias e ponto de organização da luta por moradia.
O prédio fica em frente à Estação da Luz e já foi o Hotel Santos Dumont. Fechou, passou anos vazio e voltou a ter vida quando os movimentos de moradia entraram nele.
São cerca de mil pessoas entre corredores estreitos, janelas abertas para o pátio e muros pintados com as palavras que a vizinhança escolheu: resistência, luta, cidade ocupada. É ali que moram as dez mulheres deste filme.
As imagens desta página foram gravadas lá.

Prédio vazionão cumpre função social.
A Constituição de 1988 diz que a propriedade deve cumprir uma função social. No centro de São Paulo, prédios passam anos fechados à espera de valorização enquanto milhares de famílias pagam aluguel que não cabe no salário ou vivem na rua.
Ocupar é a forma que os movimentos populares encontraram para pressionar o poder público. Eles escolhem imóveis abandonados em regiões com metrô, trabalho, escola e hospital, e cobram que virem moradia social.
Para uma mãe na escala 6×1, morar no centro muda a conta do dia. Uma trabalhadora que mora na periferia pode gastar duas horas em cada trajeto. No centro, esse tempo volta para ela e para os filhos.
famílias vivem na Mauá, cerca de mil pessoas em seis andares.
de ocupação desde março de 2007, com reformas feitas pelos próprios moradores na elétrica, na hidráulica e na fachada.
imóveis vazios na cidade de São Paulo, segundo o Censo 2022 do IBGE.
O Hotel Santos Dumont é construído na Rua Mauá, perto da Estação da Luz, num centro que ainda era cartão-postal da cidade.
O hotel fecha as portas. Os donos abandonam o prédio, que passa cerca de vinte anos vazio.
O Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC) faz a primeira ocupação. A Polícia Militar cumpre a reintegração de posse e retira as famílias.
Em 25 de março, MSTC, Movimento de Moradia da Região Central (MMRC) e Associação dos Sem-Teto do Centro (ASTC) voltam a ocupar o prédio. Desta vez, ficam.
A Justiça manda despejar as famílias. Os moradores resistem e conseguem reverter a decisão.
A Prefeitura publica o Decreto de Interesse Social do imóvel, primeiro passo para desapropriar o prédio e transformá-lo em moradia popular. O projeto feito com os moradores prevê 160 apartamentos.
As famílias seguem morando, cuidando e se organizando no prédio. A reforma definitiva ainda é a pauta.
Fontes: Mapa de Conflitos (Fiocruz), Ponte Jornalismo, Vermelho, Outras Palavras e Jornalistas Livres.
Dez mães, dez rotinas. Toque em cada retrato para entrar no perfil dela.
A única luta que se perde é aquela que se abandona.Carlos Marighella, pintado num muro da Ocupação Mauá
Situação em 22 de setembro de 2026
A proposta que acaba com a 6×1 já passou pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Falta o plenário do Senado: são necessários 49 dos 81 votos, em dois turnos.
Quem trabalha na 6×1 sabe o que está em jogo. As mulheres deste filme também.
Seis dias de trabalho, um de folga, até 44 horas por semana.
Cinco dias de trabalho e dois de descanso, um deles de preferência no domingo. A jornada cai para 42 horas em 60 dias e para 40 horas em 14 meses, sem redução de salário.
Quatro dias de trabalho e três de descanso, com 36 horas semanais e sem redução de salário. Era o que a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton, propunha desde o começo, com o VAT.
O texto que chegou ao Senado é um acordo possível, e já muda a vida de quem hoje folga um dia só. A proposta original continua sendo o alvo: a 4×3 devolve três dias inteiros por semana, tempo que para uma mãe significa acompanhar a escola, ir ao médico, dormir e existir fora do trabalho. A luta segue depois desta votação.
Vidaalém do trabalho.
A luta ganhou corpo no fim de 2023, quando Rick Azevedo, balconista de farmácia no Rio de Janeiro, gravou um vídeo no TikTok falando do cansaço da escala 6×1. O vídeo se espalhou, os comentários viraram grupos de WhatsApp e dali nasceu o movimento Vida Além do Trabalho, o VAT.
O VAT levou a pauta para as ruas e para as redes, com panfletagem, atos e um abaixo-assinado que passou de 2 milhões de assinaturas. Surgiu fora da estrutura sindical, puxado por uma juventude trabalhadora do comércio e dos serviços que se recusa a ter a vida reduzida ao emprego.
A pesquisadora Flávia Uchôa, que participa deste filme, estuda quem compõe o movimento. O documentário se soma a essa luta a partir de um ponto que costuma ficar de fora: para as mães, a folga única também é dia de trabalho.
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresenta a PEC 221, que propõe reduzir a jornada semanal.
O vídeo de Rick Azevedo viraliza e dá origem ao VAT.
O abaixo-assinado do VAT passa de 2 milhões de assinaturas. Rick é eleito vereador no Rio pelo PSOL.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) protocola a PEC 8, pela escala 4×3. As duas propostas passam a tramitar juntas.
A Câmara dos Deputados aprova a PEC. PL e Novo concentram os votos contrários.
A CCJ do Senado aprova o texto sem mudanças, com quatro votos contra. A oposição adia a votação no plenário.
O governo promete levar a PEC ao plenário do Senado até o fim de outubro. A pressão popular decide o resultado.
Fontes: Agência Senado, Câmara dos Deputados, CUT, Exame, TV Brasil e Brasil de Fato.
A equipe nunca morou na mesma cidade. Nicolas e Rayssa estão na capital paulista, Sofia fica em Botucatu, no interior de São Paulo, e Danielly mora em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia.
Pesquisa, roteiro, decupagem e edição foram tocados por chamada, mensagem e arquivo compartilhado, entre três cidades e dois estados. As gravações aconteceram no centro de São Paulo, na Ocupação Mauá.
Quatro pessoas, três cidades, um assunto em comum: o tempo que falta para quem trabalha e cuida.
Produzido durante a 5ª edição do curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo, módulo do Projeto Repórter do Futuro, da OBORÉ Projetos Especiais.
Com as moradoras da Ocupação Mauá, no centro de São Paulo.
Participação de Larissa Pelúcio (UNESP) e Flávia Uchôa (UFSCar).
Instagram do projetoPara terminar
Nenhuma das mulheres deste filme conquistou sozinha o pouco de tempo que tem. Nenhuma vai conquistar o resto sozinha. O que muda a vida de quem trabalha sempre foi conquistado junto: greve, ocupação, assembleia, abaixo-assinado, voto, rua.
A conversa no vestiário, no ponto de ônibus e no grupo do trabalho é onde a organização começa. Descubra quem sente a mesma coisa que você.
Mesmo com todos os limites, é lá que existe estrutura jurídica, negociação coletiva e memória de luta. Participe das assembleias e dispute os rumos.
Moradia, mulheres, juventude, cultura, associação de bairro, coletivo de trabalhadores de aplicativo. Escolha um e apareça mais de uma vez.
A PEC que acaba com a 6×1 está no Senado. Ligue, escreva, cobre publicamente. Parlamentar responde a pressão organizada.
Na escola, no sindicato, na igreja, na ocupação, na sala de casa. Chame gente, assista junto e converse depois. É de graça e está no YouTube.
Divida as tarefas na sua casa. Defenda creche pública, lavanderia e restaurante comunitários. Cuidado é trabalho e precisa ser responsabilidade de todo mundo.
A jornada que elas carregam não é destino. É uma escolha política, e escolha política se muda com gente organizada.
Realização
Repórter do Futuro
Exibição
Movimento
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